terça-feira, 15 de julho de 2008

Os outros

Os  Outros
 
Graça Craidy
 
Não canso de me surpreender, toda vez que me dou conta do quanto as 
pessoas pensam diferente umas das outras. Do quanto cada olho é único, 
primitivo e original, na labuta de traduzir a própria percepção. Lembro 
da velha fábula dos cegos passando a mão num elefante, cada um 
interpretando o bicho à sua maneira." É fininho e curto", diz o que 
apalpou o rabo. "É redondo e grosso", garante o que tocou a tromba. 
Todos eles certos, do seu ponto de vista, todos parciais, do ponto de 
vista do elefante. Uma questão de onde você coloca a câmera e com que 
repertório avalia o que vê. Se o seu repertório é amplo, cheio de 
olhares guardados, certamente você vai ver muitas coisas, como o Pequeno 
Príncipe do Saint-Exupery enxergava lindos significados num borrão 
mal-desenhado. Se o seu repertório é limitado, você quase sempre vê as 
mesmas coisas. Tudo lhe ronca igual.
Um dia um colega partilhou comigo a sua genial descoberta, que mais 
tarde descobri ser também a opinião do psicanalista Lacan: "As pessoas 
não ouvem, Graça, as pessoas in-ter-pre-tam." Ri muito, na época, e, 
hoje, cada vez que topo com mal-entendidos, me vem à mente a frase dele. 
Mal-entendido, não: interpretação!
 
Por sinal, uma das coisas boas de a gente ficar mais velha é entender 
que boa parte do tempo as pessoas não agem contra seus interlocutores, 
mas simplesmente porque são o que são. Isto é, nada pessoal. O sujeito 
que esbraveja por qualquer dá-cá-aquela-palha, a criatura que não 
devolve sorrisos, o indivíduo que enrijece o corpo na hora do abraço, a 
fulana incapaz de usar aquelas quatro expressõezinhas básicas por favor 
- com licença - desculpe - muito obrigada, me responda sinceramente: o 
problema é deles ou é seu? Claro que é deles! Como diria o Simpson do 
desenho animado: "Não fui eu. Já estava assim quando eu cheguei!"
 
Bem a propósito, o filósofo francês Jean-Paul Sartre alertava: "O 
inferno são os outros". Ora, se todos nós, em algum momento, somos o 
inferno do outro, melhor aprender de uma vez por todas a tourear os 
demônios que nos habitam. E a primeira coisa que a gente devia se propor 
é não ficar ofendido porque o outro pensa diferente. Afinal se cada um 
tem a sua cabeça, única, pessoal e intransferível, deveria inclusive ser 
natural emitir a própria opinião. Não a do outro. E desse respeito mútuo 
e desofendido, quem sabe quantas novas trocas?
 
A verdade, enfim, é uma só: pensar diferente não é ofensa nem desamor. 
Mas, apenas isto: pensar diferente. Entendeu, querido leitor? Ou 
interpretou?

 



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Postado por aponarte no Para pensar e sentir em 7/15/2008 02:20:00 PM